Entrevista

Em 05/11/2009 | 17:50h

SAS: uma empresa diferente das demais

SAS: uma empresa diferente das demais
Márcio Dobal tem 25 anos de carreira em empresas de tecnologia

“O SAS é uma empresa diferente das suas concorrentes” – a afirmação é do Presidente da companhia para o Cone Sul (Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Uruguai e Paraguai), Márcio Dobal – e parece permear a cabeça dos demais funcionários da gigante de tecnologia.

 

Logo na entrada da operação brasileira do SAS, após passar pela recepção, pode-se visualizar a Missão, a Visão e os Valores da companhia gravados, em letras garrafais, em um extenso mural à vista de todos.

 

Nascido em 1976, o SAS mostra uma história com diversos pontos comuns às de outras companhias globais do segmento de tecnologia, mas é, talvez, em suas particularidades que a empresa encontre suas maiores virtudes.

 

Fruto da Tese de Doutorado de um de seus fundadores – e hoje principal acionista – Jim Goodnight, o SAS foi crescendo vertiginosamente ao longo de seus 33 anos de existência.

 

Hoje, sob a batuta de apenas dois sócios, Jim Goodnight e John Sall, ambos remanescentes da fundação e apaixonados pelo trabalho com tecnologia – para se ter uma ideia, os dois donos da empresa permanecem em atividade e desenvolvendo códigos para a companhia – o SAS tem clientes espalhados em 109 países ao redor do mundo, possui mais de 10 mil funcionários e 400 escritórios espalhados por mais de 50 países.

 

Curiosamente, a companhia jamais abriu seu capital, esteve sempre sob o comando dos sócios fundadores que, ao longo do tempo, foram negociando suas respectivas participações no capital entre si até restarem os dois donos atuais, Goodnight e Sall.

 

E para poder mostrar um pouco mais dessa companhia que, nasceu como um instituto voltado ao desenvolvimento de soluções do setor agrícola nos Estados Unidos, e passou de um faturamento de pouco mais de 100 mil dólares em 1976, para 2,26 bilhões em 2008, que a Revista Inter IT teve uma interessante conversa com seu principal executivo na América do Sul, Márcio Dobal. Conversa essa que você poderá acompanhar a partir de agora.

 

Corpbusiness: Qual seu histórico de carreira? Desde quando está no SAS?

Márcio Dobal: Bem, eu estou aqui há 1 ano e 3 meses. Antes, fiquei cinco anos em uma empresa chamada BEA Systems, como vice-presidente de América Latina, uma empresa de software pra internet, que foi comprada pela Oracle. Já trabalhei na IBM e atuei muito tempo na Àsia e na Austrália. Sou formado no ITA e atuo em empresas de tecnologia há 25 anos, desde 1984. Nesse período, acho que uns 19 anos foram trabalhando com software. Na Austrália, fui desde vendedor a Country Manager, também atuei no Japão, Coreia e Cingapura, já fiz bastante coisa na região da Àsia. Depois vim para a América Latina pra tomar conta da Tivoli, de lá eu fui para a OptiGlobe, que hoje se chama Tivit. Em resumo, uma carreira bem normal.

 

Corpbusiness: Você comentou sobre o SAS ser diferente das demais concorrentes, fale um pouco mais da história da companhia e por que ela é diferente.

Márcio Dobal: O SAS começou com cinco ou seis rapazes em 1976, daí um deles (Jim Goodnight) foi comprando a parte dos demais até restarem apenas dois donos (Jim Goodnight e John Sall), um com 75% e outro com 25% da empresa. O SAS nasceu da tese de doutorado do Goodnight, e até hoje esses dois donos continuam fazendo código dentro da empresa. Nesse aspecto, é uma empresa um pouco diferente, um pouco mais acadêmica, mais purista, o que é até é bom, pois é uma empresa que se preservou de algumas tendências predatórias que tomaram conta dos fornecedores de software nos últimos cinco anos, em função do mercado de ações. Acho que o SAS conseguiu se manter um pouco a parte disso.

Apesar de manter a competitividade, porque investe muito em tecnologia e desenvolvimento, ele tem uma atitude um pouco mais cavalheiresca, por assim dizer, no trato com os clientes. Pelo menos com a minha experiência, tendo trabalhado em diversas empresas de software, eu vejo assim. Tem muita gente que fala que tem parceria com o cliente, mas o SAS eu acho que tem capacidade de dizer isso de boca cheia, porque não tem que estar ali dando explicação para o analista de Wall Street a cada duas semanas. A única explicação que tem que dar é para dois caras que estão ali porque gostam. Então isso se reflete no resto da empresa.

 

Corpbusiness: Como é a estruturação organizacional das unidades do SAS que estão sob seu comando?

Márcio Dobal: Eu entrei em junho do ano passado, só com o Brasil. Ai nesse ano eu assumi esse restante do sul da América do Sul. Nós também temos escritórios no Chile e na Argentina e, desses escritórios, nós cobrimos Paraguai Bolívia e Uruguai. Aqui nós temos escritórios aqui em São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Buenos Aires e Santiago.

Ano passado o Brasil foi bem, em termos de crescimento de venda de software. Em termos proporcionais, de percentual, foi o país que mais cresceu no mundo. E esse ano, até por conta dos bons resultados, eu passei a tomar conta desses outros países.

Esse ano nós demos uma reestruturada na Argentina, onde a base ainda é pequena, mas nos esperamos crescer lá até o final do ano, o triplo do que foi vendido no ano passado, em termos de novas licenças.

 

Corpbusiness: Qual a posição da unidade brasileira – em matéria de resultados – quando comparada às demais unidades?

Márcio Dobal: Bom, o software é muito mensurado em termos de novas licenças, e nesse caso, no ano passado, o Brasil foi o 9º maior do mundo. Nesse ano, nós estamos em 10º, até agora, mas eu acho que ainda conseguimos acabar em 8º, com uma estimativa de crescimento em torno de 15% nesse ano. É uma projeção até o final do ano, (na avaliação de resultados) o ano acaba em dezembro pra gente, já os outros dois países (Chile e Argentina) são relativamente pequenos. Pra citar um exemplo (de bom resultado) o Brasil está bem à frente dos países do Bric, China, Índia e Rússia. A China ainda tem um crescimento parecido com o do Brasil, mas um faturamento muito menor, aliás, todos os outros três países (do Bric) estão bem abaixo do Brasil em termos de faturamento global.

 

Corpbusiness: A unidade brasileira é independente do restante do cone sul ou sempre as decisões e ações são tomadas em “bloco”?

Márcio Dobal: Esse ponto também e uma das diferenciações do SAS em relação aos demais. A maioria das empresas é muito verticalizada, com cada departamento sempre se reportando diretamente a algum superior no país-sede. Assim, as empresas brasileiras acabam se tornando apenas empresas de vendas, com essa estrutura tão verticalizada.

Como o SAS é um pouco diferente disso, ele acaba determinando uma estrutura mais “federalizada”, onde cada país escolhe um caminho. É claro que existem linhas de comunicação mais comuns entre si, mas, ainda assim, dos mais de 200 produtos que o SAS tem, dá para escolher aqueles que nós podemos defender melhor aqui. Por exemplo, os produtos que são comercializados no Brasil, não necessariamente são os mesmos comercializados no México, e assim por diante. Enquanto aqui nós comercializamos muitos produtos para Finanças, Telcos, Energia e Governo, lá no México é Governo e Finanças, cada um escolhe suas diretrizes.

Já em termos de recursos, o Brasil compartilha alguns recursos, mas não muitos. Entre Argentina e Chile, até pela questão da proximidade geográfica e de idioma, eles compartilham muito mais recursos.

 

Corpbusiness: Fale um pouco sobre Business Intelligence do SAS.

Márcio Dobal: Esse mercado de BI (Business Intelligence), a gente entende que existem duas maneiras de você interpretá-lo, o que quer dizer isso. Existe a parte de relatórios que, sendo sincero, muitas empresas possuem e é bastante semelhante entre todas elas. Nós temos o nosso BI, assim como outros competidores têm, mas o que o SAS vai dizer que ele tem de diferente é sua capacidade de colocar, em cima desses relatórios de BI, uma camada de análise nos dados. Com isso ele permite projetar o futuro através de alguns modelos matemáticos criados pelos nossos gênios estatísticos (risos), permitem que você faça então modelos que tentam prever o futuro. A maioria dos nossos clientes estão tentando fazer mineração de dados ou obter alguma forma de prever como o futuro poderá se comportar.

 

Corpbusiness: Como pode funcionar essa “previsão”?

Márcio Dobal: Um exemplo disso é um cliente nosso, a Vivo, essa pesquisa pode determinar qual a melhor maneira de você cobrar os seus clientes. Porque tem clientes que gostam de receber um aviso por SMS, tem cliente que esquece, tem alguns clientes que não gostam de receber um lembrete, então, quando conhecem esse cliente, eles o tratam da melhor maneira e mais efetiva. E tem também aqueles que não vão pagar mesmo não é? (risos) Daí você também economiza, pois não adianta gastar vela boa com defunto ruim.

Então, para otimizar esses resultados, uma coisa que você pode fazer é tentar entender aquela massa de dados transacionais e, a partir daí, determinar o seu comportamento.

Outro exemplo de cliente é o Pão de Açúcar, eles usam nosso software pra fazer campanha quando querem saber quem é o cliente, o que ele compra, quais seus hábitos de consumo, através da base de dados obtida dos clientes cadastrados no programa do Cartão Mais e assim podem enviar pro cliente ofertas relacionadas com seus hábitos de consumo e não algo sem sentido ou genérico demais.

 

Corpbusiness: Isso pode ser aplicado em qualquer empresa?

Márcio Dobal: O cliente do SAS é um cliente um pouco mais maduro em termos de sistema, ele já possui uma base de dados transacional, e o que ele quer é descobrir o que fazer com esses dados, como entender melhor todo esse volume de dados e como eu posso me comportar em relação a isso. Então, o nosso software é um pouco mais sofisticado, ele é de nicho, que exige certa maturidade sistêmica do cliente para ser aplicado. Dentro disso, nos temos uma variedade de soluções, são diversos nichos onde elas podem ser aplicadas, então eu posso fazer uma análise de custos por atividade, segmentação de clientes – como nos casos que eu te falei – ou num exemplo como a Petrobras, eles podem determinar, dado seu histórico de perfurações, qual a probabilidade maior de encontrar petróleo ou gás de qualidade nessa amostragem.

E o que está por trás de todos esses exemplos é uma massa enorme de dados e uma maneira inteligente de pescar essas informações e direcionar o comportamento da empresa em relação ao cliente. Se eu tentar vender isso qual será o resultado? Se acontecer determinada coisa, qual será o resultado disso etc. Então, tudo o que o SAS se diz bom em fazer é isso, essa modelagem de futuro.

 

Corpbusiness: Houve, dentro da sua gestão, algum case interessante que você deseje compartilhar?

Márcio Dobal: A gente teve um case muito interessante relacionado com a crise financeira, que foi pela necessidade que os bancos têm de analisar o risco do crédito. Houve uma demanda muito grande por formas inteligentes de se determinar quanto de dinheiro os bancos poderiam reservar para a realização de empréstimos, qual a melhor forma de compor a carteira de clientes para, ao mesmo tempo, obter retorno sem ficar demasiadamente exposto aos riscos da inadimplência. Os próprios bancos alegam que um dos principais motivos para não cair o spread é a inadimplência.

Nós temos muito orgulho por ter desenvolvido, com bastante sucesso, soluções de cálculo de risco de crédito. Dois clientes nossos já adotaram essa solução e eu acredito que todos os bancos irão ter que buscar algo nesse sentido.

 

Corpbusiness: Falando em crise econômica, como o SAS lidou com ela? Houve demissões, reajustes de orçamento etc.?

Márcio Dobal: Bom, o SAS tem uma cabeça um pouco distinta das empresas de software que atuam aqui no Brasil, que são, em sua maioria, estrangeiras. Inclusive, o SAS não é uma empresa pública, com ações no mercado, a empresa tem somente dois donos. Então, como ela não responde para acionistas, mas somente para duas pessoas, essas duas pessoas podem tomar decisões como não demitir funcionários em massa apesar da crise. Claro que substituições naturalmente ocorrem, mas elas vêm mais por uma questão de performance e não por uma diretriz ou meta de demissão de um percentual “x”, como ocorreu na maior parte dessas empresas em todo o mundo.

A companhia tem 33 anos, sempre deu lucro, é a empresa que mais investe em pesquisa de avanço de tecnologia no mercado. Enquanto a média das empresas investe 15% da receita em pesquisa, ou até menos, o SAS investe mais de 21% ao ano. Como a empresa sempre deu lucro, o SAS possui uma folga financeira muito grande, assim a gente vai segurar a barra e estaremos preparados para o ano que vem.

 

Corpbusiness: Com uma melhora pós-crise, quais as projeções do SAS para o futuro?

Márcio Dobal: Acho que, nesse ano não podemos dizer que o SAS não pode ser afetado pela crise, mas se notarmos, o auge dela, pelo menos nos jornais, foi em outubro do ano passado, e o SAS só sentiu os efeitos por volta de fevereiro e março deste ano. Agora é que nós estamos sentindo os impactos reais do começo da crise, quando alguns projetos que deveriam ter sido iniciados e não foram. Mas ainda assim eu acho que até o final do ano vai ser possível crescer em torno de 15%.

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